VELLOSO, Cristal Angélica; AGUILAR, Patricia Michelini. A prática musical como facilitadora para o desenvolvimento socioemocional: resultados da Pesquisa Sopro Novo com estudantes da Educação Básica do Rio de Janeiro. Comunicação apresentada no GTE 09 – Educação Musical, Psicologia Cognitiva e Habilidades Musicais. Congresso Nacional da ABEM.
A prática musical como facilitadora para o desenvolvimento socioemocional
Resultados da Pesquisa Sopro Novo com estudantes da Educação Básica do Rio de Janeiro
Cristal Angélica Velloso
Fundação Sopro Novo Yamaha
cristal.velloso@sopronovoyamaha.org
Patricia Michelini Aguilar
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
patriciamichelini@musica.ufrj.br
Resumo
Nesta comunicação, apresentamos os resultados de pesquisa “Avaliação do desenvolvimento de habilidades socioemocionais em estudantes de música da rede municipal de escolas do Rio de Janeiro – um estudo Sopro Novo Yamaha”, realizada entre os anos de 2023 e 2025 por uma equipe de pesquisadores mista, utilizando técnicas de autorrelato e heterorrelato.
O público envolvido na pesquisa foi o de estudantes de 8 a 15 anos, seus pais ou responsáveis e professores, sendo que estes últimos foram capacitados pela metodologia de ensino coletivo de flauta doce intitulada Sopro Novo, que tem como objetivo promover a iniciação musical por meio do instrumento.
Foi avaliado se os valores preconizados nesta metodologia estavam refletidos nas respostas dos questionários. A equipe desenvolveu instrumentos próprios (questionários) para averiguar as competências musicais e socioemocionais nos relatos, bem como utilizou a Escala de Desenvolvimento Positivo da Juventude (DPJ) e questões do Goldsmiths Musical Sophistication Index (Gold-MSI).
Os resultados demonstraram associações positivas entre competências musicais autorrelatadas e competências socioemocionais, sugerindo o impacto positivo do ensino musical no desenvolvimento socioemocional.
Palavras-chave: Habilidades socioemocionais; Sopro Novo; Flauta doce.
Introdução
Em 2023, apresentamos à comunidade da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM) um relato prospectivo de uma pesquisa em desenvolvimento voltada à compreensão do impacto da prática musical sistematizada no desenvolvimento socioemocional de estudantes da Educação Básica.
Àquela altura, o estudo ainda estava em andamento, com a equipe de pesquisa empenhada na construção de instrumentos metodológicos, protocolos éticos e estratégias de aplicação. A proposta já apresentava como referência central a abordagem do Desenvolvimento Positivo da Juventude (DPJ), que orientaria a investigação em todas as suas etapas.
No presente artigo, apresentamos os resultados consolidados da pesquisa intitulada “Avaliação do desenvolvimento de habilidades socioemocionais em estudantes de música da rede municipal de escolas do Rio de Janeiro – um estudo Sopro Novo Yamaha”, cuja equipe de pesquisa foi encabeçada pela Profa. Dra. Patricia Michelini Aguilar (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ), coordenada pela Profa. Ms. Cristal Angélica Velloso (Fundação Sopro Novo Yamaha/FSNY), e contou com a participação do Prof. Ms. Guilherme Alves Delmolin de Oliveira (Universidade de São Caetano do Sul/USCS), Profa. Ms. Alessandra Alexandroff Netto (FSNY) e Naoki Kirimura (FSNY).
O estudo foi desenvolvido em escolas da rede pública, com estudantes entre 8 e 15 anos que participaram regularmente de aulas de música mediadas pela Metodologia Sopro Novo de ensino coletivo de flauta doce.
Tal metodologia combina práticas musicais com um conjunto de valores como ética, generosidade e profissionalismo, compreendidos não apenas como pilares pedagógicos, mas como ferramentas formativas que podem contribuir para o desenvolvimento humano integral dos estudantes.
A escolha da flauta doce como instrumento central tem fundamentos práticos e pedagógicos. Trata-se de um instrumento acessível, leve, portátil e de fácil manutenção, além de permitir resultados musicais significativos mesmo em estágios iniciais da aprendizagem.
Diversos autores defendem sua utilização como uma ferramenta eficaz na promoção de conteúdos musicais, desenvolvimento técnico e integração social.
A Metodologia Sopro Novo, aplicada na formação dos professores participantes da pesquisa, foi desenvolvida com o intuito de capacitar docentes para o uso da flauta doce em sala de aula como recurso didático-musical, promovendo vivências musicais coletivas, respeito mútuo, comprometimento e cooperação entre os estudantes. A prática pedagógica valoriza os processos de escuta, empatia e construção coletiva, e é sustentada por valores que dialogam diretamente com os objetivos da educação para as competências socioemocionais.
A relevância das competências socioemocionais na Educação Musical
A discussão sobre o desenvolvimento socioemocional na infância e adolescência vem ganhando centralidade em políticas públicas, currículos escolares e pesquisas acadêmicas.
Tais competências envolvem habilidades como:
- autorregulação emocional
- empatia
- colaboração
- resiliência
- perseverança
- senso de pertencimento
Todas são reconhecidas como fundamentais para o desenvolvimento de trajetórias saudáveis e bem-sucedidas ao longo da vida.
A abordagem do Desenvolvimento Positivo da Juventude (DPJ) surge como um referencial que valoriza as potencialidades dos jovens, em vez de focar exclusivamente em deficiências ou problemas.
Ela busca fortalecer cinco grandes dimensões:
- competência
- confiança
- conexão
- caráter
- cuidado
Esses fatores sustentam a formação de indivíduos autônomos, responsáveis e engajados socialmente.
A Educação Musical, por sua vez, mostra-se um campo fértil para o florescimento dessas competências. A participação em grupos musicais, a experiência estética compartilhada, o exercício da escuta e a necessidade de cooperação nas práticas coletivas são componentes que favorecem o amadurecimento emocional e social dos estudantes.
Além disso, há evidências empíricas que apontam para associações positivas entre a prática musical contínua e ganhos em aspectos como autocontrole, empatia e autoestima.
Metodologia da pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida entre outubro de 2023 e fevereiro de 2025, em sete escolas da rede pública de ensino.
O grupo de participantes foi composto por estudantes com idades entre 8 e 15 anos, seus professores de música e pais ou responsáveis legais.
Todos os procedimentos da pesquisa seguiram os trâmites éticos exigidos para estudos com seres humanos, incluindo aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ e autorização da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.
O objetivo central da pesquisa foi avaliar o desenvolvimento de competências socioemocionais e musicais por meio de instrumentos de autorrelato (respondidos pelos próprios estudantes) e heterorrelato (respondidos por professores). Além disso, buscou-se investigar como aspectos sociodemográficos e o envolvimento musical dos pais e responsáveis poderiam estar associados a esse desenvolvimento.
Delineamento do estudo
Trata-se de um estudo de natureza quantitativa, com desenho transversal e descritivo.
A escolha das escolas seguiu um critério intencional: foram selecionadas unidades em que os professores de música haviam sido previamente formados pela Metodologia Sopro Novo.
Participaram da pesquisa:
- 113 estudantes da Educação Básica (8 a 15 anos)
- 72 pais ou responsáveis
- 7 professores de música
A amostra dos estudantes foi formada por conveniência, considerando a adesão espontânea e a autorização dos responsáveis legais. Da mesma forma, os professores participaram voluntariamente e cada um escolheu um grupo de estudantes para avaliar.
Instrumentos de coleta
A equipe de pesquisa desenvolveu questionários específicos para cada público envolvido.
Os instrumentos utilizados foram:
Questionário para professores (heterorrelato)
Composto por 49 afirmações, sendo 35 voltadas às competências musicais e 14 às socioemocionais.
Questionário para estudantes (autorrelato)
Com 47 afirmações semelhantes às do instrumento docente, adaptadas à linguagem da faixa etária.
Escala de Desenvolvimento Positivo da Juventude (DPJ)
Escala internacional que avalia cinco dimensões do desenvolvimento juvenil.
Questionário para pais e responsáveis
Incluiu informações sociodemográficas e questões do Goldsmiths Musical Sophistication Index (Gold-MSI).
Aplicação, coleta e análise dos dados
A aplicação dos questionários seguiu protocolos adaptados à realidade escolar, com o apoio de monitores universitários capacitados pela Metodologia Sopro Novo.
Os professores receberam seus instrumentos por meio digital, enquanto os estudantes responderam aos questionários em sala de aula com apoio de professores e monitores. Já os pais e responsáveis puderam escolher entre versões impressas ou digitais.
Para a organização e tratamento dos dados foram criados bancos de dados individuais para cada questionário aplicado, posteriormente integrados em um banco consolidado.
A análise incluiu estatística descritiva com cálculo de medidas de tendência central e dispersão. Todas as análises foram conduzidas no software Jamovi (versão 2.3.28).
Desafios enfrentados
Durante a realização da pesquisa, algumas variáveis afetaram o andamento do estudo, entre elas:
- suspensões frequentes de aulas por eventos institucionais ou questões de segurança
- baixa adesão de pais ao preenchimento dos questionários
- sobrecarga de atividades dos professores
Mesmo assim, os participantes demonstraram comprometimento com o processo.
Perfil dos participantes
A amostra contou com três grupos principais:
Estudantes (n = 113): Idades entre 8 e 15 anos, média de 11,3 anos.
Professores de música (n = 7): Idade média de 57,5 anos, todos com formação superior completa.
Pais ou responsáveis (n = 72): Maioria mulheres, média de 42,2 anos.
Confiabilidade dos instrumentos
A análise de consistência interna revelou índices positivos de confiabilidade:
Autorrelato dos estudantes
Competências musicais: α = 0,876
Competências socioemocionais: α = 0,760
Heterorrelato dos professores
Competências musicais: α = 0,921
Competências socioemocionais: α = 0,726
Escala DPJ
α geral = 0,849
Esses resultados indicam boa consistência interna dos instrumentos utilizados.
Resultados principais
Os dados indicaram níveis consistentes de percepção positiva dos estudantes sobre suas habilidades musicais e comportamentos socioemocionais.
A maioria relatou:
- sentir confiança ao tocar
- gostar de se apresentar para colegas
- cooperar nas atividades musicais
As avaliações dos professores também apontaram resultados positivos, sobretudo em relação às habilidades musicais e à cooperação durante as aulas.
Associação entre competências musicais e socioemocionais
As análises revelaram associações significativas entre competências musicais e dimensões do Desenvolvimento Positivo da Juventude.
Entre elas:
- relação entre competências musicais e competência
- relação entre competências musicais e conexão
- relação entre competências socioemocionais e confiança, caráter e cuidado
Esses resultados sugerem que estudantes mais engajados musicalmente também apresentam percepções mais positivas sobre empatia, responsabilidade e autoestima.
Não foram encontradas associações significativas com fatores sociodemográficos como renda ou escolaridade dos pais. Isso indica que a prática musical estruturada pode atuar como um fator protetivo transversal.
Contribuições e considerações finais
Os resultados desta pesquisa reforçam a ideia de que a Educação Musical pode contribuir significativamente para o desenvolvimento emocional, social e relacional de crianças e adolescentes.
Quando bem estruturada e mediada por uma metodologia que valoriza escuta, respeito e convivência, a prática musical ultrapassa os limites da técnica instrumental e torna-se um meio potente de formação humana.
A consistência dos instrumentos desenvolvidos também abre a possibilidade de sua aplicação em outros contextos educacionais e comunitários.
A prática musical regular demonstrou potencial para fortalecer:
- vínculos sociais
- autoconfiança
- cuidado com os outros
- senso de pertencimento
Além disso, os resultados indicam que a música pode atuar como um fator democratizante, com efeitos positivos mesmo em contextos socialmente vulneráveis.
Esses achados contribuem para fortalecer a ideia de que a música não é apenas uma linguagem artística, mas também um instrumento de transformação pedagógica e social.